{"id":16158,"date":"2021-09-15T20:18:26","date_gmt":"2021-09-15T20:18:26","guid":{"rendered":"https:\/\/sxe.rdx.mybluehost.me\/.website_6cea44c6\/?page_id=16158"},"modified":"2024-10-23T15:58:23","modified_gmt":"2024-10-23T19:58:23","slug":"cejil-30-anos-jineth-bedoya-lima","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cejil.org\/pt-br\/30-anos\/cejil-30-anos-jineth-bedoya-lima\/","title":{"rendered":"CEJIL 30 anos: Jineth Bedoya Lima"},"content":{"rendered":"<p><iframe title=\"Ricardo Silva about Jineth Bedoya\" width=\"900\" height=\"506\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PEuF5wHEoEA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Imagem: arte original de Catalina Naranjo (IG @licopeno)<\/em><\/p>\n<p><em><b>POR<\/b><b>\u00a0<\/b><a href=\"https:\/\/www.eltiempo.com\/opinion\/columnistas\/ricardo-silva-romero\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>RICARDO SILVA ROMERO<\/b><\/a><b> SOBRE JINETH BEDOYA<\/b><\/em><\/p>\n<p>Minha querida Jineth: nada do que est\u00e1 acontecendo no mundo esta semana importa para mim tanto quanto lhe dizer que o que aconteceu com voc\u00ea realmente aconteceu com voc\u00ea; sim, eles fizeram aquele primeiro ataque, contra voc\u00ea e sua m\u00e3e, que ningu\u00e9m queria investigar; eles negaram a voc\u00ea um esquema de seguran\u00e7a, em meio \u00e0 n\u00e9voa de amea\u00e7as, porque, segundo eles, voc\u00ea n\u00e3o estava em risco; eles disseram que voc\u00ea tinha tr\u00eas dias de vida se continuasse descrevendo alian\u00e7as entre ex\u00e9rcitos legais e ilegais; eles prepararam uma armadilha para voc\u00ea naquele pesadelo de pris\u00e3o de pris\u00e3o porque voc\u00ea estava provando a todos n\u00f3s que n\u00e3o era uma pris\u00e3o, mas o escrit\u00f3rio central do crime do pa\u00eds; eles apontaram suas armas para voc\u00ea e a amarraram e sequestraram e torturaram e estupraram e deixaram voc\u00ea como morta em uma estrada na quinta-feira, 25 de maio de 2000, enquanto outras vidas continuavam andando na ponta dos p\u00e9s para n\u00e3o acordar o Estado colombiano.<\/p>\n<p>Diz-se que \u201co Estado somos n\u00f3s\u201d, de boa-f\u00e9, para que n\u00e3o esque\u00e7amos que somos respons\u00e1veis, mas \u00e9 mais correto aceitar que \u201co Estado s\u00e3o eles\u201d n\u00e3o s\u00f3 porque em sentido estrito o Estado foi criado para servir aos indiv\u00edduos que juntos formam uma sociedade, mas porque n\u00e3o poucas vezes nosso Estado, o colombiano, foi ref\u00fagio, trincheira e neg\u00f3cio para poucos. De certa forma, a hist\u00f3ria da Col\u00f4mbia &#8211; uma sucess\u00e3o de processos de paz vingados na esquina por um punhado de pacificadores- tem sido o pulso perdido para um estado que n\u00e3o \u00e9 uma sala de reuni\u00f5es armada at\u00e9 os dentes, um monstro Frankenstein fora de controle, mas um fiador da liberdade, justi\u00e7a e inclus\u00e3o em todo o territ\u00f3rio: tamb\u00e9m me envergonho, em suma, deste estado amb\u00edguo e inusitado que na segunda-feira passada se retirou do julgamento do seu caso no Tribunal de Primeira Inst\u00e2ncia, como se perd\u00ea-lo n\u00e3o fosse um triunfo.<\/p>\n<p>A advogada Viviana Krsticevic disse ao El Tiempo que nunca se esperava que, depois de seu irrefut\u00e1vel e indel\u00e9vel depoimento na audi\u00eancia de segunda-feira &#8211; onde voc\u00ea disse \u201cEu acreditei que a palavra \u00e9 a melhor forma de transformar a dor\u201d, \u201cver todos os dias no meu corpo as marcas da viol\u00eancia sexual e da tortura, [isto] n\u00e3o me permite fechar este ciclo \u201d, \u201c mas n\u00e3o vou calar \u201d, &#8211; o Estado colombiano tomaria essa decis\u00e3o com a convoca\u00e7\u00e3o de precedente perigoso que nem sequer foi levado por \u201cgovernos verdadeiramente autorit\u00e1rios como o de Fujimori no Peru, Ortega na Nicar\u00e1gua ou Maduro na Venezuela\u201d: levantar-se da mesa. Mas talvez seja um gesto t\u00edpico de um Estado paradoxal: o Estado de uma sociedade em que \u00e9 comum as mulheres carecerem, pedir ajuda a um mundo que a convida a todo o tempo a investigar, a exigir com veem\u00eancia uma justi\u00e7a que s\u00f3 funciona contra outros.<\/p>\n<p>Minha querida Jineth: nada do que est\u00e1 acontecendo no mundo esta semana me interessa tanto quanto deixar para voc\u00ea por escrito que tamb\u00e9m percebo que nestes vinte e cinco anos de jornalismo pela democracia voc\u00ea encontrou um valor sem precedentes &#8211; uma coragem que \u00e9 s\u00f3 sua &#8211; para incorporar as mil e uma lutas daqueles entre n\u00f3s que est\u00e3o fartos da inf\u00e2mia: as lutas contra a viol\u00eancia sexista, contra a guerra, contra a desigualdade, contra a indiferen\u00e7a, contra o estigma, contra a injusti\u00e7a, contra a tirania, contra a censura, contra o Estado que encolhe os ombros e sabota as dores que engendra. Sempre me ocorre dizer-lhe que naquele Natal em que nos encontramos, em busca dos \u00faltimos presentes, me pareceu que voc\u00ea e sua m\u00e3e eram uma s\u00f3 silhueta daqueles que nos redimem a todos em seu caminho.<\/p>\n<p>Nenhum her\u00f3i quer ser um. Mas ver voc\u00eas dois juntos \u00e9 entender a estranha for\u00e7a que tem impedido este pa\u00eds de se auto-implodir.<\/p>\n<p>\u2026..<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Interessado em apoiar nosso trabalho? 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